Halloween: das antigas tradições celtas às festas das igrejas americanas

Por que crianças fantasiadas batem às portas pedindo doces? E por que algumas igrejas nos Estados Unidos organizam festas justamente na noite que muita gente associa a monstros e forças malignas? A história do Halloween mistura tradições antigas, calendário cristão, imigração e costumes que mudaram bastante ao longo dos séculos.
No Brasil, o Halloween aparece em festas, escolas e lojas, mas não tem a mesma presença na vida cotidiana que tem nos Estados Unidos. Por isso, muita gente conhece os símbolos — abóboras, fantasmas, bruxas e o famoso “doces ou travessuras” — sem saber como eles se juntaram.
Uma festa ligada ao fim do verão
As raízes mais antigas do Halloween são geralmente associadas ao Samhain, uma celebração dos povos celtas da Irlanda e de outras regiões da Europa. Ela marcava o fim da colheita e a chegada da estação mais fria e escura do ano. Relatos sobre as crenças daquele período falam de uma noite em que a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos pareceria mais próxima. Fogueiras, oferendas e disfarces faziam parte de costumes ligados à proteção e às histórias sobre seres sobrenaturais.
Isso não significa que o Halloween moderno seja simplesmente uma cerimônia celta preservada intacta por milhares de anos. Ao longo do tempo, crenças e práticas de diferentes épocas se misturaram e foram reinterpretadas. A própria história dos costumes antigos é complexa, e muitos detalhes que hoje parecem “originais” chegaram até nós por relatos posteriores.
Como surgiu o nome “Halloween”?
No calendário cristão ocidental, 1º de novembro é o Dia de Todos os Santos. Em inglês, o dia também era chamado de All Hallows’ Day. A noite anterior ficou conhecida como All Hallows’ Eve — a véspera de Todos os Santos —, expressão que, com o passar do tempo, virou Halloween.
O calendário cristão também passou a marcar o Dia de Finados, em 2 de novembro. Assim, celebrações religiosas em memória dos santos e dos mortos ficaram próximas de costumes populares de outono. Em vez de uma história simples em que uma tradição substituiu completamente a outra, o Halloween foi se formando a partir de influências cristãs e pré-cristãs que se encontraram e se transformaram.
De orações e disfarces a “doces ou travessuras”
Na Europa medieval, havia costumes que lembram algumas práticas atuais. Em certas regiões, pessoas pobres visitavam casas pedindo alimentos chamados soul cakes, ou “bolos das almas”, e prometiam rezar pelos parentes falecidos da família. Na Irlanda e na Escócia, jovens praticavam o guising: vestiam fantasias, visitavam casas e, para receber comida ou moedas, cantavam, recitavam poemas ou faziam pequenas apresentações.
Esses costumes não eram idênticos ao trick-or-treating de hoje, mas ajudam a entender como a visita de porta em porta e as fantasias foram se associando à época. A frase “trick or treat” — “doces ou travessuras” — e a prática moderna ganharam força nos Estados Unidos muito mais tarde. Brincadeiras e vandalismo chegaram a preocupar comunidades no início do século 20; a distribuição organizada de doces ajudou a transformar a noite numa atividade mais familiar. Depois da Segunda Guerra Mundial, a tradição se popularizou entre as crianças.
Por que a abóbora virou símbolo?
A lanterna esculpida, conhecida como jack-o’-lantern, também atravessou mudanças. Na tradição irlandesa, histórias populares falavam de lanternas feitas em nabos. Quando imigrantes levaram esses costumes para os Estados Unidos, encontraram abóboras maiores e mais fáceis de esculpir. A abóbora acabou virando o símbolo mais conhecido da decoração de Halloween por lá.
Fantasiar-se, por sua vez, também ganhou novos sentidos. Em algumas narrativas antigas, os disfarces estavam ligados à ideia de confundir ou afastar seres sobrenaturais. Hoje, as fantasias podem representar monstros, personagens de filmes, super-heróis, animais ou simplesmente algo engraçado. Para muitas crianças, a fantasia é uma brincadeira, sem significado religioso.
Como o Halloween chegou aos Estados Unidos?
No século 19, imigrantes irlandeses e escoceses levaram para os Estados Unidos suas tradições de outono, fantasias e visitas às casas. A celebração foi incorporando costumes de diferentes comunidades e se tornando cada vez mais americana. No século 20, escolas, bairros, empresas e fabricantes de doces ajudaram a transformar o Halloween numa grande festa popular, especialmente para as crianças.
É por isso que o Halloween de hoje parece tão diferente das celebrações que lhe deram parte de suas raízes. Para a maioria das famílias americanas, a noite costuma ser uma ocasião social: decorar a casa, vestir fantasias, encontrar vizinhos e levar as crianças para pedir doces.
Por que algumas igrejas americanas fazem festas de Halloween?
A resposta curta é que as igrejas não pensam todas da mesma maneira. Algumas comunidades cristãs evitam o Halloween por causa de suas associações com ocultismo, bruxaria, morte e imagens demoníacas. Para elas, participar da celebração pode transmitir valores espirituais com os quais não concordam.
Outras igrejas fazem festas familiares, festivais de outono ou eventos chamados trunk-or-treat. Nesse último formato, os adultos decoram os porta-malas dos carros no estacionamento, e as crianças passam de um carro a outro para pegar doces. Muitas dessas festas usam fantasias divertidas ou personagens bíblicos e evitam imagens assustadoras.
Essas igrejas geralmente entendem o evento como uma oportunidade para oferecer às famílias uma atividade segura, receber vizinhos e criar convivência comunitária. Para elas, participar de uma festa com fantasias e doces não significa adotar as antigas crenças associadas ao Halloween. A Igreja Metodista Unida, por exemplo, descreve tanto celebrações cristãs de Todos os Santos quanto eventos comunitários seguros oferecidos por igrejas locais.
Assim, quando uma igreja organiza uma festa, ela pode estar adaptando a ocasião aos seus próprios valores, e não necessariamente celebrando monstros ou forças malignas. Outras igrejas, porém, preferem não participar. A variedade de respostas existe dentro do próprio cristianismo americano.
Uma tradição que continua mudando
O Halloween passou por muitas transformações: de antigas celebrações sazonais a costumes medievais, de tradições trazidas por imigrantes a uma festa infantil e comercial. Hoje, uma criança fantasiada de abóbora pode estar participando de uma atividade comunitária sem pensar em espíritos ou religião — enquanto, para outra família, certos símbolos continuam sendo motivo para evitar a data.
Essa diferença ajuda a explicar por que o Halloween pode ser visto de formas tão distintas: para alguns, é uma festa cultural e divertida; para outros, tem associações espirituais que preferem não celebrar. Conhecer sua história não obriga ninguém a comemorar, mas ajuda a entender por que a mesma noite pode significar coisas tão diferentes para pessoas e igrejas diferentes.